O debate é antigo, até meio cansativo: vale a pena apostar num canal de vendas, ou devo investir só no meu time interno? Cada resposta parece ter seus argumentos, suas histórias de sucesso, seus fracassos frustrantes. Mas sabe o que mais pesa nesse impasse todo? Os mitos e receios que crescem no imaginário dos gestores. Eles travam decisões e podem custar o crescimento de uma empresa.
Neste artigo, você vai ver quais são esses principais mitos, por que tanta gente acredita neles e como processos, métricas e alinhamento podem, na prática, apagar o medo de crescer com canais parceiros. Para deixar as ideias mais vivas, algumas histórias reais marcam cada virada de chave.
Crescer por canais não é sorte, é método.
O surgimento do medo do canal
Dá para entender quem sente desconfiança. Muita empresa já tentou delegar a venda, só para ver o parceiro deixar tudo de lado quando uma proposta melhor apareceu. Ou então, ver leads queimados, nome da marca sendo utilizado sem cuidado, pouco controle sobre o processo. O canal pode parecer terra de ninguém.
Por outro lado, o time próprio traz a segurança do contato direto. Você vê o esforço, cobra resultado, conhece cada vendedor pelo nome. Parece mais fácil controlar… Mas será que esse controle é tão real assim?
1. Mito: canal de vendas entrega menos que o time próprio
A crença mais comum é que vendedor externo nunca vai vestir a camisa como um funcionário. Que o parceiro só pega as “sobras”, os clientes mais difíceis, e que os melhores negócios ficam sempre na mão do time próprio.
Isso acontece mesmo? Às vezes sim, principalmente quando tudo começa no improviso. Sem treinamento, sem processos claros, sem acompanhamento. O canal vende do jeito dele, cada um de um jeito, sem padrão. O resultado é sempre uma mistura de casos isolados, quase aleatória.
Mas quando o canal é bem estruturado, já vi empresas dobrando a receita em poucos trimestres. Por exemplo: um grupo de tecnologia do interior de São Paulo abriu seu portfólio para três pequenos integradores locais, depois de perceber que o time próprio não conseguia chegar em certas cidades. Com treinamentos mensais, roteiros claros e acompanhamento com metas, os parceiros fecharam 52% dos novos negócios em seis meses.
O segredo? Tirar do canal a cara de improviso. Quando o parceiro sabe o que precisa entregar, tem acesso a materiais e sente que faz parte da estratégia, o jogo vira.
Quando o canal entende o roteiro, o resultado chega.
2. Mito: só o time próprio gera vendas de qualidade
O medo aqui é recorrente: só quem trabalha dentro da empresa tem profundidade suficiente para entregar vendas qualificadas, entender as dores e personalizar o discurso.
Mas se você olhar para pesquisas recentes, a história muda. Um estudo de 2019 revelou que apenas 33% do tempo de um representante interno vai realmente para vender. O resto do tempo é consumo com tarefas administrativas, sistemas ou follow-ups repetitivos.
Canais de vendas bem treinados focam justamente na parte prática: ir atrás do cliente, explicar a solução e fechar contrato. Se tiver acompanhamento, feedback e o canal evoluir junto com a empresa, a chance de entregar qualidade é maior do que se imagina.
Um caso interessante: uma startup de software decidiu separar parte dos pacotes mais básicos para distribuição via canal. Com onboarding digital, tutoriais e comissão escalonada, os parceiros elevaram o NPS dos clientes finais para 8,6, acima do índice da equipe de vendas interna. O segredo não era conhecer tudo, mas saber exatamente qual problema resolver e para quem oferecer.
3. Mito: só o time próprio tem eficiência no processo
Aqui surge o argumento da velocidade. Quem está dentro casa, pensa-se, responde rápido, integra informação e fecha negócio sem ruído. Mas olhe os números: de acordo com um relatório da Salesforce, os próprios times internos gastam só 28% da semana vendendo de fato. O restante vai todo para tarefas como cadastro de dados, controles e reuniões internas.
Em outras palavras, o “processo eficiente” do time interno pode ser só uma impressão. Às vezes, o canal parceiro consegue movimentar negócios até mais rápido, já que foca no fechamento.
Tem um caso clássico no setor de educação: quando uma edtech implantou canal de representantes para regiões do Nordeste, viu um aumento de 36% na velocidade do ciclo de vendas, simplesmente porque os parceiros já tinham a confiança dos clientes locais e não dependiam do RH, Jurídico ou outras áreas para cada contato.
“Canal eficiente começa com processos definidos, não com vigilância.”
4. Mito: canal é sinônimo de menos controle e menos segurança
O receio de perder o padrão é compreensível. Dados de clientes, preços, políticas… Tudo fica mais exposto no canal. Parece difícil garantir o sigilo e o correto tratamento do pipeline.
A verdade é que processos e limites claros fazem toda diferença, tanto quanto ou até mais do que num time próprio.
- Políticas de acesso: definir quem tem acesso a que informações.
- Sistema único para pipeline: toda movimentação do canal passa pelo mesmo sistema do time interno, permitindo rastreabilidade.
- Relatórios separados: métricas por parceiro, por região, por tipo de negócio.
- Contratos e NDA digitais: simples, rápidos, renovados a cada ciclo.
Em setores como tecnologia e saúde, onde o sigilo é ainda mais sensível, empresas adotaram sistemas próprios de permissionamento, integrando times internos e canais. O resultado quase sempre é controle maior e rastreabilidade. Ou seja, canal não é bagunça, quando tem processo.
5. Mito: canal só engaja se a comissão for agressiva
Fala-se muito que canal desmotiva rápido, que só fica ativo se a comissão for acima do mercado, ou se o prêmio for irrecusável. Mas experiências de empresas que viraram o jogo mostram o contrário.
- Canais desengajam sobretudo quando não enxergam valor a longo prazo.
- Falta de comunicação, materiais, feedback e acompanhamento rápidos contam mais que o percentual de comissão.
- Reconhecimento público (como ranking, bônus por performance) muitas vezes funciona melhor do que um acréscimo na margem.
Resumindo em uma frase:
“Comissão importa, mas canal precisa de perspectiva.”
Um exemplo do B2B: uma empresa de serviços de TI reduziu a comissão de entrada, mas passou a entregar recorrência trimestral por upsell de clientes, treinamentos e bonificação para quem renovava contratos. O churn caiu 21%, e o faturamento subiu 32% entre o quarto e sexto mês de canal ativo.
6. Mito: canal queima lead bom, só o time interno consegue converter
Quantos leads já foram “queimados” por vendedores despreparados? Todo gestor já viu isso, seja internamente ou no canal. Mas aqui, a diferença está no acompanhamento.
Pesquisas indicam que 65% dos vendedores gastam boa parte do tempo em tarefas que não convertem nada. E 70% dos SDRs nem sequer validam o interesse do prospectar durante o processo. Ou seja, esse “risco” não é exclusivo do canal.
O que impede a queima não é onde o lead está, mas sim:
- Qualidade no treinamento inicial do canal
- Playbook objetivo: o que perguntar, quando transferir, quem pode atender
- Monitoramento dos funis: taxa de conversão de cada etapa por parceiro
- Feedback constante, inclusive usando os dados do CRM/ferramenta para identificar travas
É comum ver empresas usando times internos como laboratório. Depois, formatam os aprendizados e entregam aos canais um passo a passo de boas práticas. Em menos de três meses, a taxa de conversão pode aumentar até para leads mais difíceis, antes ignorados.
“Canal bom é canal acompanhado de perto.”
7. Mito: para escalar, o time próprio é mais previsível
Por fim, talvez o argumento mais sensível: é possível prever o crescimento do canal de vendas? A maioria responde: “no time próprio, controlo tudo, sei quem entrega, o orçamento é fixo, consigo prever resultado”. Mas veja um dado forte: 74% das empresas não bateram meta de vendas em 2023, inclusive aquelas que concentram orçamento no time próprio, até em setores como Software e Cloud, considerados “campeões” em processo.
A verdadeira previsibilidade vem de acompanhamento, não da natureza do canal. Empresas que criam dashboards por parceiro, medem semanalmente indicadores (pipeline, conversão, ciclo, receita média, churn) e ajustam o funil na prática conseguem prever resultados, sejam internos ou não.
Um distribuidor na área de saúde saiu de 4 para 20 parceiros ativos em um ano. Usou onboarding via Zoom, dashboard compartilhado e metas de qualificação mínimas. Acabou demitindo dois vendedores internos e abriu o dobro de contatos qualificados.
“Previsibilidade nasce do que você mede e acompanha.”
Como estruturar canais e times para resultado, não para sorte
Depois de ver os mitos caindo por terra, fica claro: canal de vendas pode entregar, sim, padrão, controle e previsibilidade. Mas dá trabalho. Não é só escolher parceiros e esperar resultados. Precisa de método e de rotina.
- Documentar o processo: do lead ao fechamento, cada etapa, cada papel. Manualizar até parecer exagero.
- Treinar, treinar e treinar: onboarding dividido em módulos, simulações de venda e reciclagem contínua.
- Alinhar incentivos: comissão, ranking, prêmios e reconhecimento por métrica concreta, não só volume.
- Feedback recorrente: semanal no primeiro mês, depois quinzenal. O canal sente quando o acompanhamento existe.
- Dashboards abertos: mostrar os números, a comparação entre parceiros, entre regiões, transparência é o melhor remédio para a desconfiança.
- Permissões e segurança: papel bem definido, acesso controlado, ambiente confiável. Isso tranquiliza até quem tem medo do canal.
E aí, cresce junto. Time próprio e canal evoluem no mesmo padrão, só mudando o ritmo e o alcance.
De dentro para fora: empresas que superaram o medo do canal
Tudo parece teoria, até alguém colocar em prática.
- Startup SaaS (Educação): antes, investia todos os recursos em time próprio, mas o crescimento estagnou em cidades menores. Abriu canal para pequenos consultores educacionais, estruturou trilha de aprendizado online e criou painel de metas. Resultado? Dobrou a base de clientes em 12 meses. Hoje, o canal responde por 48% da receita.
- Clínica de saúde: com canal de médicos parceiros, aumentou o número de encaminhamentos em 39% ao implantar report mensal, regras claras de comissão e acompanhamento conjunto de casos.
- Empresa de tecnologia: integradores passaram a ter reuniões quinzenais e acesso ao mesmo CRM do time próprio, o que reduziu o ciclo de vendas em 25% e aumentou o ticket médio em 40%.
Eles erraram, testaram processos diferentes e insistiram nos ajustes contínuos, nada foi liberdade total, mas também nunca foi microgestão. O canal virou aliado, não rival.
O papel do alinhamento entre áreas
Pra funcionar, canal não é só pauta do comercial. Sucesso do cliente, marketing, financeiro e TI precisam se envolver. Marketing entrega o posicionamento certo para cada público, TI garante integração dos dados, Financeiro zela pela execução dos pagamentos, pós-venda cuida das renovações e possíveis upsells.
Empresas que esquecem desses elos criam ruído. O parceiro fica sem resposta, o financeiro atrasa comissão, o cliente sente falta de acompanhamento, o NPS cai rápido.
“Canal profissional integra todas as áreas. Só assim escala.”
Não é raro ver vendas caindo só porque o onboarding travou numa integração de sistema ou porque uma dúvida simples demorou a ser respondida pelo suporte.
O futuro pede coragem de testar
Não há receita pronta, nem garantia de sucesso. O canal de vendas pode ser o melhor atalho para novos mercados, mas só entrega quando vem alinhado a processos, acompanhamento e dados transparentes.
- Ouvir os parceiros é tão importante quanto ouvir o time próprio.
- Revisar e ajustar métricas ajuda a descobrir onde estão as melhores oportunidades.
- Comunicar claro, repetir onde parece óbvio, antecipar dúvidas, tudo isso constrói segurança e confiança dos dois lados.
Está provado: 77% dos profissionais de vendas já usam videoconferência no processo de vendas. O futuro do relacionamento comercial é misto, colaborativo, flexível.
Conclusão: quebrar o ciclo do medo
Quem fica travado nos mitos, fica travado no crescimento. Não existe garantido no canal, assim como não existe no time próprio. O que existe é método, acompanhamento, processos abertos e coragem de ajustar ao longo do tempo.
“Quem estrutura e mede, escala sem medo.”
Canal partner não é plano B. Com padrão, metas e feedback, vira motor de crescimento, não ponto fraco. Vale tentar, e, se possível, errar rápido, corrigir mais rápido ainda.
Afinal, no jogo do crescimento, o risco de não testar é maior do que qualquer receio que o canal pode trazer.
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