Trabalhar como SDR com leads que vêm por meio de parcerias traz uma realidade própria e cheia de armadilhas. O desafio começa desde o instante em que chegam informações potencialmente “quentes”, mas nem sempre confiáveis. É fácil cair em ciclos intermináveis de validação, checando dados manuais, repetindo etapas, brigando com sistemas que não conversam. Muitas vezes, esta sensação é familiar: será mesmo que esse contato é real? O domínio do e-mail existe? Essa empresa já não apareceu aqui ontem?
Neste artigo, aprofundo as cinco perguntas que todo SDR se faz ao lidar com leads de parceiros. Trago métodos práticos, técnicas e exemplos do que realmente funciona (e às vezes, também o que não funciona tão bem). Às vezes, parece que validar leads é um trabalho invisível, mas na verdade, essa rotina define se o canal traz oportunidades ou só ruído.
Antes de tudo, é preciso admitir: não existe validação perfeita, só processos melhores.
1. Como identificar se o e-mail do lead é válido?
E-mails inválidos são uma das causas mais comuns de frustração nos times de SDR. Na prática, eles consomem tempo, minam a eficácia do funil e, pior ainda, podem indicar que a fonte (o parceiro) não está engajando corretamente. Às vezes, é só um erro de digitação; outras, é spam puro.
Por que validar o e-mail é tão problemático?
A experiência mostra: há etapas onde o lead “pula” pelo processo sem passar pelo crivo técnico. Muitos times confiam em automações que só olham o domínio (“@empresa.com”), mas isso raramente basta.
- Leads com domínios públicos (como Gmail, Yahoo etc.): Normalmente são desconsiderados em vendas B2B, mas há exceções. Imagine uma startup, ainda sem domínio próprio, sendo descartada automaticamente. É um falso negativo possível.
- Erros de digitação: O simples “.comn” ou “@gmaill.com”, quase imperceptível, é mais comum do que parece.
Hamilton Salem destaca que a análise inicial deve cruzar informações demográficas e padrões do e-mail usando ferramentas como LinkedIn Sales Navigator, Clearbit e Hunter. Cada uma delas aborda o dado de uma maneira:
- Hunter: Faz automação e validação em massa, apontando e-mails “catch all” e inválidos.
- Neverbounce/ZeroBounce: Validação de e-mails em tempo real, inclusive integração via API.
- Clearbit: Busca contexto além do endereço, cruzando domínios com nomes de empresas e perfis sociais.
O passo prático: sempre que receber um lead do parceiro, rode pelo menos uma verificação automática. Em times com pouco orçamento, scripts gratuitos (em Python ou Google Apps Script) ajudam na checagem básica de domínios MX.
Devo validar sempre?
Sim, mas com equilíbrio. Não trave o processo inicial se suspeitar que o parceiro é confiável e o lead está em estágio avançado no funil. Nada mais frustrante do que perder uma boa oportunidade por um filtro excessivo no começo.
Valide, mas não paralise sua prospecção por detalhes mínimos.
2. O lead representa mesmo uma empresa existente?
O cenário clássico: chega um lead de parceiro, endereço de e-mail bonito, nome interessante, mas a empresa simplesmente não aparece em lugar nenhum. Nem site, nem LinkedIn, nem cadastro público. Será mesmo legítimo investir tempo?
Etapas para checar existência:
- Busca em bases públicas: Para empresas no Brasil, pesquise no ReceitaWS ou use APIs como CNPJ.io. Em outros países, acesse registros governamentais equivalentes.
- Google + LinkedIn: Muitas vezes, basta jogar o nome da empresa entre aspas no Google. No LinkedIn, busque perfis empresariais e verifique quantidade de funcionários.
- Domínios personalizados: Ferramentas como Hunter, Clearbit e Sales Navigator não só acham, mas também qualificam empresas, cruzando com outros dados, recomendadas em estudo do Hamilton Salem.
- Reputação cruzada: Pesquise avaliações em sites como Reclame Aqui, Glassdoor e comentários em redes sociais. Empresas verdadeiras quase sempre deixam rastros, nem que seja em fóruns ou notícias.
Se a suspeita persistir, um truque infalível é enviar um e-mail direto ao domínio, mesmo genérico (“contato@empresa.com”), buscando uma resposta automatizada ou erro. Não raro, o próprio erro na entrega já é um sinal vermelho.
Quando se trata de leads vindos de parceiros, outro ponto sensível é se a empresa já é conhecida internamente, mas com outro nome (siglas, marcas, razão social x nome fantasia). A organização dos leads de parceiros é fundamental para evitar retrabalho e duplicidade.
Resista à tentação de confiar cegamente.
Empresas sem rastros normalmente não são empresas.
3. Como detectar e evitar leads duplicados?
Poucas coisas atrasam mais a vida de um time de SDR do que receber (e acionar) leads duplicados. O problema se agrava em operações de canal, onde múltiplos parceiros podem compartilhar os mesmos leads, ocasionalmente com variações nos dados.
Segundo a RD Station, quase 60% dos dados de marketing não são confiáveis, principalmente por duplicidade e erros de cadastro (veja o estudo). O problema não é só operacional: isso contamina indicadores de performance, afeta métricas de conversão e cria conflitos de atribuição.
Como ocorre a duplicidade?
- Variações de grafia: Empresa “Acme Ltda.”, “Acme”, “ACME Tecnologia” todas diferentes aos olhos do sistema, mas evidentemente a mesma empresa.
- Informações diferentes para o mesmo lead: Um parceiro insere o e-mail corporativo, outro, o e-mail pessoal do mesmo contato.
- Diferença em campos secundários: Leads entram com nomes, números de telefone ou até mesmo cargos diferentes, mas pertencem à mesma empresa e pessoa.
A saída, geralmente, é a combinação de três medidas:
- Sistema de checagem automática: Planilhas inteligentes (com funções tipo PROCV ou INDEX+MATCH), uso de filtros avançados em CRMs, e, para volumes altos, APIs que buscam CPF, CNPJ ou padrões similares.
- Enriquecimento de dados: Ferramentas como Clearbit ajudam a cruzar várias fontes, mostrando se aquele domínio ou número de telefone já foi usado antes.
- Padronização de entrada: O parceiro deve preencher o nome da empresa conforme modelo acordado. É algo tão simples, mas só funciona se todos seguirem o padrão, o que, claro, raramente acontece sem integração e treinamento constantes.
A longo prazo, implementar boas práticas no lead sharing é o que separa times escaláveis de operações caóticas. Não basta ter as melhores ferramentas: sem os acordos corretos entre parceiros, os erros sempre escapam.
Duplicidade não é só erro de sistema, é falta de alinhamento entre pessoas.
4. Como validar dados além do básico: fit de perfil e intenção?
Quando o lead está correto tecnicamente e-mail válido, empresa legítima, sem duplicidade, entra em cena o que realmente importa: faz sentido investir? O famoso “fit” de perfil.
Modelos de qualificação existem aos montes. Não há consenso, como todos que já atuaram neste papel percebem cedo. Uns juram pelo BANT, outros pelo ANUM, PACT, CHAMP, FAINT, GPCTBA/C&I (referência MKT4Sales). Cada modelo tem seu filtro, seja por orçamento, autoridade, necessidade ou timing.
- BANT: Orçamento, Autoridade, Necessidade, Tempo.
- ANUM: Autoridade, Necessidade, Urgência, Dinheiro.
- GPCTBA: Objetivos, Planos, Desafios, Timing, Orçamento, Autoridade.
Na prática, a maioria dos times de SDR recorre a um misto desses métodos, afunilando conforme o momento. O Grupo Newway destaca que metodologias como Spin Selling e GPCTBA se adaptam bem a operações complexas. Em tecnologia, Luhao recomenda questionários e análises de fit já no onboarding dos parceiros, preparando-os para sugerir leads realmente aderentes.
Como colocar isso na rotina?
- Defina perguntas de qualificação: Liste quatro ou cinco perguntas que todo lead de canal deve responder até o primeiro “touchpoint”.
- Modele formulários inteligentes: O parceiro só consegue enviar leads após preencher campos bem definidos (exemplo: área de atuação, ticket médio, dores sentidas).
- Score automático: Se o sistema permitir, aplique pesos e scores aos campos, acelerando a priorização para o time de SDR.
- Retorno rápido com feedback: Quando recusar leads, explique ao parceiro o motivo. Isso ajusta o tipo de lead enviado no futuro.
Nenhum processo automatizado substitui a conversa olho no olho.
5. Que ferramentas e rotina ideal evitam perda de tempo na validação?
Chegamos ao ponto mais sensível. Não basta saber o que fazer: é preciso encaixar tudo num workflow que não sugue horas do seu dia só para eliminar ruído. O tempo do SDR é caro e insubstituível.
Ferramentas que otimizam cada etapa
- Para e-mails e empresas: Hunter, Neverbounce, Clearbit, LinkedIn Sales Navigator (dados demográficos e fim à duplicidade), segundo Hamilton Salem.
- Enriquecimento de dados: Ferramentas que buscam informações extras da empresa automaticamente, via API (Pessoa, cargo, indústria, porte, etc.).
- Gestão de leads: Sistemas que aceitam automações, integração entre equipes e parceiros, além de dashboards visuais com performance, refletindo boas práticas como as do PRM para B2B.
- Automação de checagem de duplicidade: Sistemas de score e alertas em SaaS ou modelos personalizados em planilhas/projetos internos.
Já para centralizar a operação, parceiros bem treinados e um portal dedicado ao compartilhamento são diferenciais, como mostra este guia sobre portais de parceiros. Quando todos submetem leads por um só formulário, usando integrações inteligentes, naturalmente a duplicidade cai e a análise do “fit” é automática.
Rotina ideal para SDR na prática
- Agende varreduras diárias: Não espere acumular leads para agir. Reserve meia hora no começo do turno para checagem.
- Divida a rotina: Separe validação técnica da qualificação “de negócios”. Assim, evita desencontros entre quem faz só a triagem e quem conhece o canal.
- Documente tudo: Isso parece batido, mas cria histórico confiável, inclusive para futuras campanhas.
- Feedback para parceiros: Reforce acertos e apure erros. Cada ciclo ajusta o próximo.
Quem opera com alto volume só sobrevive com automação e integração, em especial, conectando sistemas de leads com ferramentas já existentes nos canais, tema aprofundado aqui em integrações entre PRM e outros sistemas.
Rotina curta, validada e revisada sempre. Esse é o segredo que ninguém gosta de admitir.
Considerações finais que valem ouro no dia a dia
Num mundo ideal, os leads de parceiros já viriam perfeitos. Mas, sinceramente, isso quase nunca acontece. A realidade é que a qualidade dos dados depende tanto do parceiro quanto das ferramentas e sobretudo da clareza dos processos.
- Valide e-mails, mas não emperre oportunidades legítimas por causa de um detalhe técnico.
- Cheque a existência da empresa, porém evite o excesso de zelo que impede a fluidez da rotina.
- Previna duplicidade com acordos claros e checagem automática.
- Use frameworks de qualificação como guia, sem engessamento. Procure entender o contexto de cada lead, não só o dado frio.
- Centralize, automatize e compartilhe aprendizados. Reajuste, sempre.
A validação de leads de parceria é um exercício contínuo de senso crítico, flexibilidade e aprendizados (alguns, infelizmente, dolorosos). O que vale para um canal, pode falhar feio em outro. Então, busque referências, copie boas ideias, mas nunca se acomode com o processo atual.
A rotina de validar é, no fundo, a arte de separar sinais reais do barulho.
A cada dia, as ferramentas mudam, os parceiros evoluem e o lead bom ganha novos contornos. Trabalhar como SDR nesse universo é aprender todos os dias uma nova dúvida e, aos poucos, construir respostas para elas.